domingo, 21 de dezembro de 2014

Um conto de Natal




   Enroscou-se mais, como que a tentar prender o pouco calor que ainda detinha no corpo com o entrelaçar dos braços e das pernas. Felizmente não chovia, o que era sempre mais desconfortável, mas o frio cortava como um bisturi na mão de um experiente cirurgião. A noite já tinha caído. Por todo o lado a cidade inundava-se de luzes. Pessoas atarefadas, que corriam de um lado para o outro, porque era o último dia e não queriam deixar nada por fazer, não se davam conta dele. Era sempre assim durante todo o ano, porque haveria de ser diferente naquele dia só porque era Natal?
   Com algum esforço ainda se conseguia recordar do Natal em família. A casa onde vivera era pobre, mas acolhedora. As necessidades constantes eram algo que não lhe tinham enchido a mente de criança, tão repleta de sonhos e fantasias. Recordava-se dos brinquedos que tivera, uns soldadinhos de plástico, um jeep ao qual faltava uma roda, entre outras coisas que via com formas incertas pelos olhos da memória.
   Agora era um adolescente. Já não se recordava bem há quanto tempo vivia na rua. Sabia que não era muito, outros vagueavam sem rumo há bastante mais tempo, mas parecia-lhe uma eternidade, como se os tempos de infância com a mãe fossem uma outra vida ou um sonho que tivera em tempos. Vivia do que recolhia e das pequenas coisas que conseguia roubar aqui e ali, algo de que se sentia envergonhado, mas a que a necessidade obrigava.
   Não conseguia ficar mais tempo parado. Apesar das dores que sentia nos pés devido aos sapatos demasiados grandes e rotos que calçava, teve que se levantar e começar a andar, era a única forma que conhecia de aquecer o corpo. O estômago já doía, desde manhã que não comia nada. Correra o boato na rua de que seria servido um jantar de Natal no abrigo para o povo da rua. Era curioso como as pessoas que viviam de forma desafogada se lembravam daqueles que nada têm, não pelas pessoas, pelos seres humanos, mas pela época em que viviam. Parecia que o inundar de luzes e a febre das compras as fazia ver algo que esqueciam durante o resto do ano, como se, ao estenderem a mão uma vez por ano, ficassem isentas de se preocupar com os infortunados do mundo.
   Nas montras das lojas, todas enfeitadas com estrelas, Pais Natal e neve de spray, via coisas belas, coisas que nunca iria conhecer sem ser através de um vidro. O abrigo não era longe, teria só que andar mais um pouco para lá chegar. Na rua, algumas pessoas olhavam para ele de lado, outras chegavam mesmo a atravessar a estrada para não se cruzarem com ele. Não deu atenção, era assim todo o ano, porque havia de ser diferente naquele dia?
   O abrigo estava cheio. “Não cabes”, disseram-lhe. Os mais velhos ocupavam os lugares todos e, quando decidiam que não havia espaço para mais ninguém, era inútil tentar resistir. Afastou-se do local, não nutrira grande esperança de conseguir fosse o que fosse, o que acabara por acontecer. Não tinha para onde ir. As portas fechavam-se, as lojas esvaziavam-se e todos se dirigiam para casa… se ele ao menos tivesse uma… mas isso era algo que pertencia ao passado.
   A noite arrastou-se lentamente, e com ela descia a temperatura. O mercúrio dos velhos termómetros encolhia-se no fundo do seu pequeno tubo de vidro. Na cidade não caía neve apenas porque não havia nuvens, pois a temperatura ideal para ela tinha sido atingida.
   Não sabia que horas eram. Sentia o corpo todo fustigado pelas dores provocadas pelo frio e pela fome. Incapaz de dar mais um passo, sentou-se no alpendre de uma velha casa. A pedra fria encostada às pernas já não o incomodava, estava com o corpo tão gelado que começava a ficar dormente. Deixou-se deslizar pela porta onde estava encostado até se deitar no chão. Como se de um cão se tratasse, enrolou-se todo ficando irreconhecivelmente pequeno. Não tinha mais nada a esperar, as ruas estavam desertas e não tinha mais energias para se mexer. Mais uma vez iria esperar pela passagem da noite sem saber se chegaria a ver novamente o sol. 
   Sentiu algo que lhe tocava, há quanto tempo estaria ali deitado? Não fazia ideia. Tinha adormecido, pelo menos era a sensação que tinha. Algo lhe voltava a tocar e lhe dava pequenos empurrões. Com algum esforço abriu os olhos e viu um cão, parecia um pastor alemão, mas não tinha raça, era como ele, um tresmalhado perdido nas andanças do mundo. O cão abanava a cauda, parecia feliz por o encontrar. Era fantástico como o animal se sentia feliz por algo tão insignificante. O Farrusco, como ele o baptizou de imediato, olhou para ele com uns olhos meigos e humildes durante uns segundos. Depois, sem pedir licença nem avisar, encostou-se a ele e deitou-se. De imediato sentiu o calor do corpo do animal. Sem qualquer obrigação, o Farrusco decidira partilhar a única coisa que lhe restava, o calor do seu pêlo. Abraçou-o. Sentia o corpo do animal contra o seu. Os ossos estavam bem revestidos de carne, aquele não era um cão vadio qualquer, se é que era um cão vadio. Estava bem alimentado, mas não em demasia, como muitos dos que via serem passeados nas ruas. Não demorou a sentir o peso nos olhos a voltar, estava tão cansado, e agora que sentia aquela pequena fagulha de calor, não pôde controlar o sono e acabou por adormecer.
   - Pantufas? Pantufas, onde estás? – Ouviu uma voz dizer. Parecia-lhe distante, mas, ao mesmo tempo, bastante perto. Era uma voz de mulher e, pelo tom, deveria pertencer a uma que já conhecera muitos anos neste mundo.
   - Estás aqui, meu maroto. – Ouviu a voz dizer, agora bem perto. – O que fazes na rua a esta hora com o frio que está? – Conseguia ouvir os pequenos passos caracterizados pelo lento arrastar dos pés. – Fizeste um amigo, Pantufas? – Dizia a voz, já ao lado dele. Abriu os olhos. Lentamente o vulto que se encontrava na sua frente tomou forma. Um rosto recheado de rugas e parcialmente iluminado pelas luzes da rua ostentava um terno sorriso. A idade não escondia a sua passagem naquela mulher de baixa estatura e corpo franzino. Nos ombros trazia um xaile preto que compunha um conjunto de roupa onde as cores não combinavam. A camisola surrada, com um pequeno buraco junto ao ombro direito, tombava levemente sobre a saia de fazenda em xadrez que cobria as pernas e as grossas meias de algodão que envolviam os pés enfiados num par de pantufas.
   - Pobrezinho, aqui ao frio. – Disse ela. – Anda, deves estar com fome, de certeza. Hoje não é dia para se passar assim sozinho na rua.
   Com esforço, levantou-se. O cão já estava de pé e saltitava à volta dele.
   - Sabes, – Continuou ela. – Qualquer amigo do Pantufas é meu amigo também.
   Com dificuldade, acompanhou aquele estranho par que, por alguma razão misteriosa, tinham decidido deitar-lhe uma mão.
   A casa era pobre e evidenciava bem a passagem dos anos. A tinta, comida pelo sol, descascava em alguns pontos da parede. No interior, as mobílias eram poucas, e estavam cobertas com algum pó. O chão, de madeira seca, rangia a cada passo.
   - De certeza que queres tomar um banho, não é verdade? – Perguntou ela.
   - S… Sim – Respondeu. As palavras custavam a sair. Estava com o corpo tão entorpecido que até o mínimo movimento era feito em esforço. Ela acompanhou-o ao quarto-de-banho e deu-lhe uma toalha.
   - Podes estar à vontade. – Disse ela. – Eu vou ver se te consigo arranjar outras roupas, que essas estão imundas.
   - Obrigado. – Era a única palavra que conseguia dizer. Ela olhou para ele e sorriu.
   – De nada, meu filho, de nada. – Respondeu. 
   Entrou no quarto-de-banho e fechou a porta, não sem antes o Pantufas entrar. Era estranho estar ali. Muitos anos se tinham passado desde a última vez que tinha estado assim numa casa. Abriu a velha torneira que rangeu. Os canos assobiavam com a passagem da água. Não teve que aguardar muito até começar a ver o vapor a inundar a banheira, a água estava quente. Tinha o corpo tão frio, que demorou imenso tempo para conseguir equilibrar a sua temperatura com a da água. Aquela senhora tinha-o recolhido apenas porque o cão, por algum motivo que só o animal conhecia, tinha engraçado com ele. Não deveria ser ao contrário? Não era suposto serem as pessoas a engraçarem com os cães e não os cães a engraçarem com as pessoas? Era mesmo estranho. Ainda não sabia o nome dela, mas também ainda não lhe tinha dito o dele… Só sabia o nome do cão! Aproveitou para saborear a água. Não queria estar ali muito tempo, embora o corpo lhe suplicasse para ficar. Não podia abusar da hospitalidade.
   - Tens aqui umas roupas para vestires quando acabares. – Ouviu dizer do outro lado da porta. – Espero que te sirvam. Eram do meu falecido, que Deus lhe dê eterno descanso. O jantar está quase na mesa.
   Na sala encontrou uma mesa posta para duas pessoas, um pinheiro onde luzes de várias cores piscavam em conjunto, reflectindo nos enfeites em forma de bola e pinha que o adornavam. O presépio, com poucas figuras, mas onde não faltavam Maria, José, o menino, a vaca, o burro e o anjo, encontrava-se sobre uma pequena mesa ao lado de uma velha televisão.
   - Só tinha uma posta. – Disse ela, quando começou a servir o jantar. – Por isso terá que ser meia para cada um. É pouco bacalhau, mas não há mais! – E sorriu. Sorriu com sinceridade e sem qualquer pretensão ou vergonha, como se aquele facto lhe desse mesmo uma genuína vontade de rir. Aquela simplicidade, aquele aceitar da sua condição de vida, aquele aproveitar na totalidade as poucas riquezas que a vida lhe dava era contagiante. Ele começou a sentir-se diferente, mais animado, sem remoer constantemente nos azares da vida. Conforme a refeição foi andando, enquanto comia o bacalhau, as batatas cozidas e a hortaliça, a conversa também animou e, como dois velhos amigos que se encontravam após muitos anos separados, contaram a sua vida, um ao outro, com todos os pormenores. Para encerrar, as rabanadas, que ela fizera e que ele considerou divinais, combinadas com a fatia de bolo-rei, pois desse havia pouco, completaram uma refeição como nunca se lembrava de ter tido.
   - Agora, – Disse a D. Joaquina, que, no meio de tão animada conversa, já se tinha apresentado. – Como já é meia-noite, está na hora dos presentes. Vamos ver o que temos aqui. – E aproximou-se do pinheiro. 
    Ele olhou para onde ela se dirigia e reparou nos três embrulhos que se encontravam debaixo da árvore. Tinham estado sempre ali? Quando olhara para o pinheiro anteriormente não se recordava de os ter visto. 
    - Para quem é este? – Perguntou ela, falando para si própria. – Aqui diz… Pantufas. Olha, Pantufas, uma prenda para ti. – Disse ela para o cão. Este parecia perceber. Com as orelhas para baixo e o rabo a abanar, aproximou-se. Ela desembrulhou a prenda e deu-lhe o osso de borracha que se encontrava dentro. 
    - Agora este é para… Joaquina. É meu. – Rasgou o papel e ele pode ver um conjunto de pares de meias. – Mesmo o que estava a precisar. – Disse ela. Depois de pousar as meias ao seu lado, pegou no terceiro embrulho e levantou-se. – E o último que é para… - Olhou para a palavra que se encontrava no papel durante alguns segundos, como se tivesse dificuldade em ler o que lá estava escrito. - Aqui diz: Ricardo. – Disse, olhando para ele. – Este é para ti.
   Ele não queria prenda nenhuma, já não era suficiente o que ela tinha feito por ele? Não podia pedir mais nada. No entanto, foi incapaz de articular qualquer palavra para recusar a oferta. O olhar meigo dela e a forma como lhe estendia o embrulho impediam-no de o fazer. Retirou o papel com cuidado, não queria estragar nada. Vivera tantos anos a aproveitar tudo que nem sequer era capaz de rasgar um papel de embrulho. No interior encontrou um livro. Nunca tivera um. Sabia ler, era verdade, mas nunca lera nenhum. Podia ver pelo estado em que ele estava que já tinha bastantes anos. Pelo estado da lombada, podia ver que já fora lido mais do que uma vez. Olhou para a capa e leu o título em voz alta.

   - Canção de Natal de Charles Dickens.
   - Espero que gostes. – Disse ela.
   Ele olhou para ela. Que palavras poderia usar para exprimir o que sentia? Era impossível reduzir à simples forma da frase aquilo que lhe enchia a alma naquele momento. Abriu a boca, mas nenhum som conseguiu sair. Ela sorriu.
   - E agora está na hora de dormir. – Disse ela. Trouxe-lhe alguns cobertores e uma almofada. Ele deitou-se no sofá de tecido vermelho, que, como só o conhecera agora, parecia-lhe que também estava enfeitado de acordo com a quadra festiva. O Pantufas deitou-se junto a ele, enroscado sobre o tapete que se encontrava em frente ao sofá. 
   - Queres que apague as luzes do pinheiro? – Perguntou a D. Joaquina. 
   - Não, deixe estar. – Respondeu ele. – Obrigado… Obrigado por tudo.
   - De nada, meu filho, de nada. – Respondeu ela. – Dorme bem e até amanhã. – Disse, ao apagar as luzes.  
   - Até amanhã. – Respondeu ele. «Amanhã…», pensou. «Não sei o que me trará o dia de amanhã, mas uma coisa sei: nada nem ninguém alguma vez me poderá tirar esta noite de Natal em família».

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O MURO

O muro estendia-se até onde alcançava a vista, tanto em altura como em comprimento. Dizia-se que não tinha fim, que se estendia pela terra, sobre vales e montanhas, a toda a extensão do mundo. O seu topo era inalcançável, constava-se, e que roçava o topo do céu. Do outro lado? Do outro lado tinha o nada. Pelo menos era este o conhecimento que passava de pais para filhos. Todos sabiam que do outro lado não tinha nada, sabiam porque lhes tinha sido dito pelos seus pais e a eles pelos pais deles, e assim sucessivamente desde que havia memória. Mas nem todos aceitavam plenamente o muro. Havia muitos que o questionavam. O que fazia ali? Quem o construíra? Porquê? Perguntas às quais a resposta sempre fora “sempre aí esteve e sempre estará, o muro é o nada e nada é o muro”. Perguntas que acabavam por se apagar em bocas que envelheciam e nascer em bocas jovens, e que, com o passar do tempo, acabavam por se apagar, num eterno ciclo de perguntas sem resposta.

O muro era feito de pedra. Enormes blocos cuidadosamente colocados uns sobre os outros e meticulosamente encaixados teciam uma malha de rocha tão perfeita que nenhum pedreiro alguma vez fora capaz de a replicar. O muro não tinha fissuras, nem falhas, pelo menos nenhuma que alguma vez constasse na memória de alguém, nem mesmo a memória de alguém ter dito a alguém da existência de fosse o que fosse no muro para além da perfeição da sua construção. A sobreposição dos blocos que o compunham era tão exacta que se tornava impossível de saber qual a sua espessura. Algumas tentativas, algures no passado, tinham sido feitas para o perfurar, mas, desses intentos, apenas sobravam algumas marcas na rocha e restos de ferramentas partidas. Aldeias tinham nascido e morrido junto ao muro, gerações sobre gerações tinham vivido ao lado dele, e o tempo passara inexoravelmente, mas sem nunca deixar marcas nas rochas que permaneciam imóveis no seu lugar.


Todos os dias dava um passeio junto ao muro. Gostava de o fazer deixando uma mão deslizar sobre a rocha. Sentia a porosidade das pedras e a perfeição dos cortes. Não encontrara nunca nenhuma parte que estivesse longe de ser perfeita. Todas as rochas tinham a mesma dimensão, todas estavam cortadas e polidas da mesma forma. Os blocos estavam colocados intercaladamente, uns sobre os outros, como enormes escadas que subiam para o desconhecido. Todos os dias admirava o muro e todos os dias sonhava com fazer isso mesmo, subir até ao desconhecido. Ao contrário daqueles que apenas perguntavam o que estaria do outro lado, ele queria ver com os próprios olhos. Não se importava de não voltar, o que procurava era o conhecimento, não a glória de o ter. Partilhar o conhecimento ou ser conhecido por todos como aquele que viu o outro lado não eram variáveis incluídas nos seus desejos. Sabia que não era o primeiro a ter estes pensamentos, nem que seria o último. Sabia também que, se levasse a cabo o seu desejo de escalar o muro, não seria o primeiro a fazê-lo, esperava era ser o primeiro a fazê-lo com sucesso, algo que nunca antes acontecera. Na verdade, as tentativas de escalar o muro tinham-se limitado a uma, pelo menos naquela parte do mundo. Ninguém sabia de que tamanho era o mundo, nem se tinha fim, nem mesmo se havia muitas mais aldeias para além das que eram conhecidas por ali. Na verdade, também a curiosidade de saber estas coisas era pouca, ou mesmo nula. Assim, ele partia do princípio que mais ninguém, em nenhuma parte do mundo, tinha tentado escalar o muro, excepto aquele caso que viera a conhecer uns anos antes. Algumas gerações atrás, como lhe haviam contado os anciãos da aldeia, um jovem como ele, forte e determinado, tinha decidido escalar o muro. Embora todos lhe tivessem dito que era uma loucura e que era impossível, pois não se conseguia ver o topo do muro, nem mesmo saber se o muro tinha topo, ninguém o conseguiu demover da sua ideia. A escalada tinha sido iniciada no primeiro dia de Primavera e, durante algum tempo, os aldeões tinham-se juntado, todos os dias, junto ao muro, para o verem escalar. Quando deixaram de o ver, por já se encontrar demasiado alto, deixaram de se preocupar e, aos poucos, o caso começou a cair no esquecimento, até que, alguns meses depois, o corpo do jovem apareceu junto ao muro, estilhaçado no chão. Os anciãos da aldeia analisaram o corpo, agora quase irreconhecível devido à estrema magreza que apresentava, e tinham concluído que a causa da morte não fora a queda de grande altura, que lhe tinha partido todos os ossos do corpo, mas a fome. O mais provável era que ele tinha morrido durante a longa queda que dera. Este caso, que tinha esmorecido a vontade de escalar o muro de todos aqueles que ponderavam essa hipótese, só lhe dava novo alento. Não só tinha o muro para vencer, como iria ter sucesso onde outros tinham falhado.

Em posse de todos os dados que a memória das gerações passadas lhe davam, preparou-se, física e mentalmente, para a tarefa que o esperava. Assim como fora feito gerações atrás, também ele iniciou a subida no primeiro dia de Primavera. Tinha encontrado o local de onde o seu predecessor tinha iniciado a escalada e decidira fazê-lo no mesmo sítio, não só num desafio directo ao seu insucesso, como também para aproveitar as cavilhas de metal que ele tinha deixado encaixadas nas rochas. Mais tarde ou mais cedo, irremediavelmente, as cavilhas iriam-lhe mostrar até que ponto ele tinha chegado... ou então, saberia que o seu insucesso tinha sido duplamente incompleto, ao não atingir o topo do muro e ao não subir mais alto que o primeiro escalador.
Os primeiros dias foram os mais difíceis. A passagem de uma vida em plano horizontal para plano vertical tinha as suas consequências. A escalada era facilitada pela herança do malogrado escalador mas, mesmo assim, o esforço era considerável. As primeiras noites foram mal dormidas, mas o tempo e a rotina trouxeram a habituação. Agora vivia o dia-a-dia verticalmente, dormindo, comendo e realizando todas as outras funções corporais nessa perspectiva. O mundo tornara-se apenas uma mancha deixada para trás, agora só existia ele e o muro. A noção do tempo foi sendo perdida lentamente. Há quanto tempo estava a escalar? Semanas? Meses? Não fazia a mínima ideia. Não sabia se trepava muito ou pouco, ou se trepava mais nuns dias no que noutros. Tentou contar as pedras que ia deixando para trás para comparar os dias, mas acabava sempre por se perder nos números e nunca conseguir chegar a nenhuma conclusão.

O dia chegou em que as cavilhas antigas terminavam. Mais nenhum vestígio fosse do que fosse se encontrava naquele ponto do muro, apenas uma última cavilha a simbolizar o último fôlego de um desconhecido que ele aprendera a respeitar cada vez mais com o passar dos dias. Durante uns minutos repousou, apoiado nesta última cavilha, como que a despedir-se de um companheiro invisível que o tivesse acompanhado na subida até aquele ponto. Colocando habilmente uma nova cavilha, reiniciou a subida. Não sabia quanto mais teria que trepar, o topo ainda estava invisível. A verdade era que o céu estava coberto por uma neblina que o impedia, já há bastantes dias, de ver para além de uma curta distância, para qualquer um dos lados. Assim, decidiu manter o ritmo de escalada em que tinha ali chegado, sem se preocupar com a distância que o separaria do topo do muro.

Dias e noites passaram-se, sempre dentro da mesma monotonia. Apesar da sua gestão de esforço e da adaptação à vida na vertical, que agora se tornara quase natural, o cansaço começava a entranhar no corpo. Receava ter o mesmo fim do seu predecessor. Sempre que esses pensamentos afloravam à sua mente, esforçava-se por afastá-los concentrando-se na sua missão.

Não sabia quanto tempo tinha passado desde que iniciara a subida, mas isso e tudo o resto tornou-se irrelevante, no momento em que colocou a mão no muro, após se içar para uma cavilha, e não sentiu a familiar planura vertical, mas sim um arredondar para dentro. Com o ânimo redobrado, colocou mais uma cavilha e, com uma força que já não sabia ter em si, içou-se lançando o corpo contra o muro. Contrariamente ao habitual, não encontrou a resistência da rocha. Tinha encontrado o topo? Era ali que terminava o muro? Iria finalmente ver o que o esperava do outro lado? Estes pensamentos cruzaram-lhe a mente numa fracção de segundos, sendo de imediato substituídos pelo reconhecimento que, na sua ânsia de atingir o topo do muro, se tinha içado com tanta força que se tinha desequilibrado e estava a tombar para o outro lado do muro. Sentiu uma superfície arredondada sobe si, o topo do muro era em curva e era muito menos espesso do que alguma vez pensara. Não conseguindo segurar o seu ímpeto, tombou de cabeça para o outro lado. Sentiu um aperto no coração e aguardou por se sentir a cair para um final trágico e certo, mas, no lugar disso, sentiu... nada! Sentia-se como se estivesse parado. No entanto, debaixo dos pés não tinha a característica sensação do chão, nem sabia muito bem para que lado era “baixo”. Olhou em volta. Ia jurar que, no momento em que atingira o topo do muro, o dia já tinha dado lugar à noite. No entanto, à sua volta podia ver tudo branco. Rodou para ver o que o circundava e viu nada, tudo era branco, já nem o muro via. Não conseguia sequer saber se tinha rodado, pois não tinha nenhum ponto de referência. Não podia afirmar que não via nada, porque ele via, só que o que via era nada. Estava no meio de nada e só via nada. Agora entendia o que fora dito de geração em geração. “Do outro lado do muro só há nada”. Sempre pensara que o que era dito era que do outro lado do muro não havia nada, a inexistência de coisa alguma, mas estivera sempre enganado. Do outro lado do muro havia o nada, o completo e inexorável nada... e era no nada que ele estava e lá iria permanecer. Estranhamente, sentiu-se a aceitar o nada com facilidade, sentia-se a diluir, a passar a ser parte do nada... Mas ele não queria ser nada, ele não era parte do nada. Ele era algo! Agora não poderia ser dito que do outro lado do muro só tinha nada, porque ele estava lá! O muro já não era o nada, pois ele ocupava o nada! Então, se o muro já não era o nada, o nada também já não era o muro...

Voltou a sentir o Sol e o chão, voltou a sentir o vento e a chuva... voltou a sentir, mas de forma diferente… tudo era diferente, nada era o mesmo, pois ele agora era o muro.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A PRAIA

Era mais um daqueles dias cinzentos, como tantos outros, que caracterizam o Inverno. Apesar do céu estar coberto de nuvens, a chuva ainda não tinha marcado presença. Um vento fria cortava-lhe o rosto como navalhas de gelo invisíveis. Virado para a praia, podia ver as ondas crispadas com a espuma branca no topo a ser empurrada pelo vento. Aqui e ali, algumas rochas resistiam ao assalto da maré cheia, mantendo-se fora da água e sendo continuamente fustigadas pelas ondas. O cheiro a maresia cercava-o e inundava-lhe as narinas. Apesar do frio do ar o gelar até aos pulmões, inspirou fundo, para absorver aquele cheiro que lhe trazia recordações de tempos passados. Há muitos anos que não via a praia nem o mar. Encontrava-se no cimo das escadas que desciam até ao areal, mas não tinha coragem de descer. Dali podia ver a praia em toda a sua extensão e o mar que sempre o fascinara. Apesar de gostar da praia no Verão, no pico do calor, era no Inverno que ele gostava do mar. A passividade e calma do Verão não se comparavam à fúria desgarrada do Inverno. As ondas rolavam e chocavam entre si, como se lutassem pelo domínio do mar. A areia, normalmente carregada de pegadas dos veraneantes, tinha sido alisada pelos ventos e as marés vivas. Aqui e ali só se viam as pequenas marcas dos inquilinos de Inverno, as gaivotas. Estas ainda não tinham marcado presença naquele dia, pelo menos desde que ele ali chegara. Já as tinha visto ao longe, no entanto, em perseguição de um barco de pesca que regressava ao porto nessa manhã.
A praia trazia-lhe recordações dos seus tempos de infância, dos tempos em que tinha sido verdadeiramente feliz. A infância era a única fase da vida em que se podia atingir a felicidade em pleno, na sua forma mais pura. Cedo começam as preocupações da vida adolescente e adulta e o sentimento nunca mais é o mesmo. Por muito feliz que se seja, em qualquer momento depois da infância, há sempre algo negro, alguma preocupação, bem no fundo de nós, que corrói essa felicidade, impregnando-a de impurezas. Olhou para o céu. Os olhos da memória rasgaram o véu cinzento que o cobria, como se de um pano velho se tratasse, fazendo aparecer um céu azul e brilhante onde um Sol reinava supremo em todo o seu esplendor, inundando o ar de calor. A luz alastrou pelo passeio até à estrada que começou a ficar pejada de carros, em movimento e estacionados. O silêncio que o cercava e o uivo do vento foram substituídos pelas inúmeras vozes das pessoas que passeavam ou se encontravam na praia. As vozes cresciam e multiplicavam-se, mas, aos poucos, uns risos e depois umas gargalhas de criança, sobrepuseram-se a todos os outros sons. No areal, as barracas de panos às riscas verdes e brancas, alinhavam e enchiam-se de pessoas, umas deitas em toalhas, outras sentadas nas cadeiras de madeira deixadas pelos banheiros. No meio de todas aquelas pessoas, procurou a criança cujos risos se sobrepunham a tudo. No sector 36, três barracas a seguir à placa descolorada que o definia, encontrou-o. Tinha o cabelo castanho, um pouco grande e despenteado, como sempre. Os olhos castanhos como avelãs brilhavam intensamente, realçados por um sorriso recheado de pequenos dentes de leite. Usava aqueles calções vermelhos, com duas riscas azuis verticais na perna esquerda, de que tanto gostava. Podia-se ver como antes fora, em tempos que quase esquecera, os tempos em que passava férias naquela praia junto com o pai e a mãe. Viu esta deitada à entrada da barraca, com as costas apoiadas numa cadeira tombada e amparada por uma almofada, como tanto gostava de fazer. Na mão tinha aquele livro grosso que estava sempre a ler e que ele não se lembrava de a ter visto acabar. Junto dele estava o pai, que, com a mão direita, escavava mais um buraco fundo na areia, como costumava fazer tantas vezes. O pai, que um dia fora arrancado da sua vida pelo cancro, brincava ali, com ele, cheio de vida e animação. Aqueles eram os dias em que o via mais feliz, sem o sobrolho carregado e a má disposição provocada pelas contrariedades da vida. Viu-se pegar na pá verde, a que ele mais gostava. Como se podia ter esquecido da verdinha? Muitas construções tinha feito com ela, durante todas as vezes que ali passara férias. Na barraca ao lado estava o Bolinhas, que olhava atentamente para ele, como sempre fazia. Com o seu pêlo todo ensarilhado e a língua de fora, esperava uma oportunidade para brincar com ele. De vez em quando soltava um latido, como que a chamá-lo para a brincadeira. A trela que o prendia ao pau da barraca não o deixava correr e saltar como tanto gostava. Viu-se a levantar, de forma súbita, e correr pela areia. Sentiu os grãos grossos massajarem-lhe as solas dos pés, entre prazer e cócegas. Aquele era o primeiro dia de praia e ainda não se tinha habituado àquelas minúsculas pedrinhas. Era uma sensação muito estranha, que o incomodava e lhe dava enorme prazer ao mesmo tempo. Não sabia explicar porquê, mas também não se preocupava com isso, só sabia era que gostava de o fazer e, por isso, corria pela areia com todas as suas forças, soltando risos e gargalhadas.

- Onde vais? - Ouviu o pai gritar. A mãe olhou por cima do livro e sorriu.

- Porque esperas? - Disse ela. - Vai atrás dele... e leva o balde, que ele deve querer água, como de costume. Como tantas outras vezes, o pai foi atrás dele, sem correr, mas com aquela longa passada com quase sempre o apanhava, de balde amarelo na mão para juntos trazerem água.

No mar, do outro lado das rochas, as gaivotas aglomeravam-se, como uma mancha branca e cinza que boiava sobre a água. Aqui e ali, uma ou outra, faziam uma busca aérea à praia, há procura de um espaço de areia vazio onde alguém tivesse deixado restos de comida. Gostava tanto de correr atrás das gaivotas. Um dia havia de conseguir agarrar uma antes de ela levantar voo. Quando o pai, já com o balde cheio de água, se aproximou dele, correu pela praia acima de volta à barraca, fugindo dele. Estava tão feliz que quase rebentava. Transbordava alegria e inocência por todos os poros dos corpo. Correu e correu até acabar por chegar à barraca ofegante. Enquanto recuperava o fôlego, apoiado com as mãos nos joelhos, de costas para mar, deixou o olhar vaguear pelas barracas, pelo muro que separava a praia da estrada, até o fixar nas escadas que desciam para a praia. No cimo dos degraus viu um velho que olhava para ele com os olhos cor de avelã cheios de lágrimas. O olhar estava estava fixo nele e chamava-o, com uma força estranha mas familiar. Durante algum tempo ficou preso naquele olhar, resistindo ao chamamento. Não queria ir, aquele olhar só lhe prometia o fim daquela felicidade que sentia, o fim da inocência, dos dias cheios, como o que estava a viver naquele momento. Não! Não queria ir, queria ficar. Queria ficar ali para sempre! Tinha que ficar ali, ali é que estava verdadeiramente vivo, o velho que o olhava do cimo das escadas, com a sua longa gabardina bege e as suas calças coçadas, que se encolhia de frio, fustigado por um vento inexistente, estava morto, não existia. Virou as costas e viu o pai a chegar com o balde e um enorme sorriso estampado no rosto. O Sol brilhava e aquecia-lhe o corpo. Pegou na pá e sentou-se junto ao buraco, ia brincar ali para sempre. Finalmente era feliz.

quarta-feira, 25 de março de 2009

O MAR

Colocou a mão contra o vidro da janela. Sentiu a superfície lisa e fria contra a palma. O vidro embaciou em volta dos dedos, o calor do seu corpo vivo inundava a superfície morta e gélida que a separava do exterior. No quarto, a escuridão ocultava a parca mobília que o recheava. No exterior, podia ver o minúsculo candeeiro que se esforçava, noite após noite, por iluminar uma rua de paralelo gasto pelo tempo, sem sucesso, mas isso não o demovia da sua função. A luz da lâmpada por vezes tremia, mas nunca cedia às intempéries dos Invernos, nem aos calores do Verão.

Uma gota caiu no exterior do vidro. Como uma lágrima derramada por um amor perdido, deslizou pela superfície plana até se perder no patamar da janela. Mais uma gota caiu, e depois dessa, outras se seguiram. A chuva chegava sorrateira e sem aviso. As nuvem há muito que cobriam o céu ocultando a Lua e as estrelas, mas a chuva ainda não tinha chegado… até àquele momento.
Olhou para cima. Apesar de estar no décimo primeiro andar, longe ficava o céu, negro como a escuridão que sentia ao seu redor, a escuridão que envolvia a casa onde se encontrava. Tinha apagado as luzes, a noite era o tempo das trevas, contrariamente à vontade do pobre e abandonado candeeiro de rua quebrado pelo tempo. A água corria pelo vidro. Já não conseguia vislumbrar as linhas direitas dos outros prédios, as imagens distorciam-se, através da água, transformando prédios, carros, e candeeiro em objectos disformes, monstros de uma mente perturbada.

Abriu a janela. Sentiu o vento invadir a divisão trazendo consigo a chuva gelada de Inverno. Gostava da água, fosse ela qual fosse, sempre gostara. Desde pequena que sonhava com a água, que vivia com a água… que sonhava com o mar. Aos vinte e sete anos ainda não tinha visto o oceano. Qualquer oceano. A grande massa de água até perder de vista, o gigante, o colosso, não apenas um mero rio, uma lagoa ou um lago, não apenas água contida por uma barragem, mas o imenso e infindável oceano. Hoje seria o dia, hoje decidira partir com a chuva à procura do mar, o mar com que sonhava, o mar que chamava por ela, o mar onde tinha que chegar.

Abandonou tudo como estava, deixou a porta de casa aberta, já nada a preocupava. Enquanto descia, procurou as chaves do carro no bolso. Uma mera ferramenta para atingir um objectivo. Cruzou a rua calmamente. A chuva caía e inundava-lhe a roupa, penetrando as várias camadas de tecido até atingir a pele. Sentiu o arrepio do frio da água em contacto com o seu corpo quente. Não sentia frio, nunca sentia frio em contacto com a água. Passou por baixo do candeeiro, agora majestoso na sua altura. Olhando para cima podia ver as pingas iluminadas a cair continuamente, a chocarem com o candeeiro e a escorrerem pelo seu mastro. O ferro resistia, como sempre resistira. Tinha a sensação que aquele pobre candeeiro estivera sempre ali, desde sempre, fixo no seu lugar cumprindo a sua função. Sentia que isso não se passava com ela. Nunca encontrara o seu lugar, mas também nunca o procurara verdadeiramente. Agora sentia que o seu lugar era onde estava o mar, a água pura, livre, misteriosa…

Continuou o seu caminho até ao carro. Abrindo a porta entrou. Iniciava a sua verdadeira viagem. A vida era uma viagem, uma procura de algo, de algum significado para tudo e para nada, de alguma razão para existir. Todos fazem essa viagem, pensou, consciente ou inconscientemente, alguns encontram o seu lugar, outros chegam ao fim da vida sem o conhecer. E qual seria o meu?
Ligou o motor e avançou. Tinha um longo caminho a percorrer, a costa ficava longe, provavelmente só lá chegaria ao nascer do Sol. A estrada estava vazia, nenhum carro passava, nenhuma alma se perdera na noite, pelo menos na noite dela, na noite em que ela percorria a estrada no seu carro consumido pelo uso mas que ainda, de alguma forma, conseguia levá-la sem dificuldade onde ela queria chegar. Junto à berma, a água da chuva corria, formando pequenos rios furiosos que se lançavam pela encosta abaixo, apenas para formarem pequenos lagos no fundo, lagos que ela perturbava com as rodas incansáveis do seu carro. Pelas margens da estrada passavam casas, carros, campos e árvores, mas nada lhe interessava. A paisagem não tinha qualquer apelo, a escuridão cercava tudo, rasgada apenas, aqui ou ali, por um foco de luz artificial. Os seus olhos focavam apenas a sua frente. Via a estrada e a chuva, cujas gotas, como traços, reflectiam as luzes dos faróis.

Quantas horas tinham passado? Não fazia ideia. Na sua frente via a pequena povoação piscatória à beira-mar plantada. Lentamente, começou a ver aquilo porque tanto sonhara, aquilo que fazia sentido. Sentia o chamamento. Em cada fibra do corpo, em cada célula, sentia o mar a chamar por ela.

Abandonou o carro na berma da estrada, porta aberta e faróis acesos. Tinha cumprido a sua função, tinha-a trazido até ali. Agora já não tinha importância, estava esquecido, fazia parte de um passado que agonizava no caminho para uma morte à muito anunciada. Tirou os sapatos e as meias, abandonando-os, e avançou, sentindo os pés a afundarem ligeiramente na areia húmida e fria. Tirou o casaco. A água da chuva escorria-lhe pela cabeça, pelos ombros, pelos braços e pelas pernas. Estava totalmente encharcada, como se estivesse debaixo de um interminável chuveiro. Na sua frente via o mar. As ondas avançavam continuamente, apenas para se desfazerem na areia. No seu topo, longos rolos de algodão brilhavam no escuro da noite. O céu abria. Por entre farrapos de nuvens, a Lua iluminava a praia, mas a chuva continuava incessante, sempre no mesmo ritmo, sempre presente. A água escorria-lhe pela cabeça e turvava-lhe a visão. Com a mão limpou a face. Os pés enterravam-se mais na areia agora que estava junto à quebra das ondas. Por momentos admirou a grandiosidade do mar. Retirou as roupas, lentamente, peça a peça, até ficar completamente nua. O mar chamava por ela, por ela e apenas por ela, não por tecidos criados pelo homem, não por falsas peles que cobrem o corpo, mas pela sua verdadeira essência, pelo corpo desnudado e livre. Avançou lentamente sem nunca hesitar ou olhar para trás. Na sua mente vozes convidavam-na e cumprimentavam-na pela sua chegada. Abriu os braços. O mar subia ao seu redor, cobrindo o seu corpo até às axilas. Levantou o rosto para o céu e fechou os olhos. Abriu a boca e sentiu a chuva a cair nos lábios, na língua e na garganta. Engoliu a água pura que se acumulava dentro da boca. Com os olhos fechados, retomou a sua marcha pelo mar dentro. Pouco depois as ondas rolavam sobre a sua cabeça. O seu longo cabelo preto enrolava-se na espuma. Sentiu o seu corpo a diluir-se lentamente nas águas que o rodeavam. Deixou-se levar pelas ondas, os pés perderam o contacto com a areia e ela avançou, avançou até se perder no mar, até se tornar um com o oceano. Tinha encontrado o seu lugar.