quarta-feira, 25 de março de 2009

O MAR

Colocou a mão contra o vidro da janela. Sentiu a superfície lisa e fria contra a palma. O vidro embaciou em volta dos dedos, o calor do seu corpo vivo inundava a superfície morta e gélida que a separava do exterior. No quarto, a escuridão ocultava a parca mobília que o recheava. No exterior, podia ver o minúsculo candeeiro que se esforçava, noite após noite, por iluminar uma rua de paralelo gasto pelo tempo, sem sucesso, mas isso não o demovia da sua função. A luz da lâmpada por vezes tremia, mas nunca cedia às intempéries dos Invernos, nem aos calores do Verão.

Uma gota caiu no exterior do vidro. Como uma lágrima derramada por um amor perdido, deslizou pela superfície plana até se perder no patamar da janela. Mais uma gota caiu, e depois dessa, outras se seguiram. A chuva chegava sorrateira e sem aviso. As nuvem há muito que cobriam o céu ocultando a Lua e as estrelas, mas a chuva ainda não tinha chegado… até àquele momento.
Olhou para cima. Apesar de estar no décimo primeiro andar, longe ficava o céu, negro como a escuridão que sentia ao seu redor, a escuridão que envolvia a casa onde se encontrava. Tinha apagado as luzes, a noite era o tempo das trevas, contrariamente à vontade do pobre e abandonado candeeiro de rua quebrado pelo tempo. A água corria pelo vidro. Já não conseguia vislumbrar as linhas direitas dos outros prédios, as imagens distorciam-se, através da água, transformando prédios, carros, e candeeiro em objectos disformes, monstros de uma mente perturbada.

Abriu a janela. Sentiu o vento invadir a divisão trazendo consigo a chuva gelada de Inverno. Gostava da água, fosse ela qual fosse, sempre gostara. Desde pequena que sonhava com a água, que vivia com a água… que sonhava com o mar. Aos vinte e sete anos ainda não tinha visto o oceano. Qualquer oceano. A grande massa de água até perder de vista, o gigante, o colosso, não apenas um mero rio, uma lagoa ou um lago, não apenas água contida por uma barragem, mas o imenso e infindável oceano. Hoje seria o dia, hoje decidira partir com a chuva à procura do mar, o mar com que sonhava, o mar que chamava por ela, o mar onde tinha que chegar.

Abandonou tudo como estava, deixou a porta de casa aberta, já nada a preocupava. Enquanto descia, procurou as chaves do carro no bolso. Uma mera ferramenta para atingir um objectivo. Cruzou a rua calmamente. A chuva caía e inundava-lhe a roupa, penetrando as várias camadas de tecido até atingir a pele. Sentiu o arrepio do frio da água em contacto com o seu corpo quente. Não sentia frio, nunca sentia frio em contacto com a água. Passou por baixo do candeeiro, agora majestoso na sua altura. Olhando para cima podia ver as pingas iluminadas a cair continuamente, a chocarem com o candeeiro e a escorrerem pelo seu mastro. O ferro resistia, como sempre resistira. Tinha a sensação que aquele pobre candeeiro estivera sempre ali, desde sempre, fixo no seu lugar cumprindo a sua função. Sentia que isso não se passava com ela. Nunca encontrara o seu lugar, mas também nunca o procurara verdadeiramente. Agora sentia que o seu lugar era onde estava o mar, a água pura, livre, misteriosa…

Continuou o seu caminho até ao carro. Abrindo a porta entrou. Iniciava a sua verdadeira viagem. A vida era uma viagem, uma procura de algo, de algum significado para tudo e para nada, de alguma razão para existir. Todos fazem essa viagem, pensou, consciente ou inconscientemente, alguns encontram o seu lugar, outros chegam ao fim da vida sem o conhecer. E qual seria o meu?
Ligou o motor e avançou. Tinha um longo caminho a percorrer, a costa ficava longe, provavelmente só lá chegaria ao nascer do Sol. A estrada estava vazia, nenhum carro passava, nenhuma alma se perdera na noite, pelo menos na noite dela, na noite em que ela percorria a estrada no seu carro consumido pelo uso mas que ainda, de alguma forma, conseguia levá-la sem dificuldade onde ela queria chegar. Junto à berma, a água da chuva corria, formando pequenos rios furiosos que se lançavam pela encosta abaixo, apenas para formarem pequenos lagos no fundo, lagos que ela perturbava com as rodas incansáveis do seu carro. Pelas margens da estrada passavam casas, carros, campos e árvores, mas nada lhe interessava. A paisagem não tinha qualquer apelo, a escuridão cercava tudo, rasgada apenas, aqui ou ali, por um foco de luz artificial. Os seus olhos focavam apenas a sua frente. Via a estrada e a chuva, cujas gotas, como traços, reflectiam as luzes dos faróis.

Quantas horas tinham passado? Não fazia ideia. Na sua frente via a pequena povoação piscatória à beira-mar plantada. Lentamente, começou a ver aquilo porque tanto sonhara, aquilo que fazia sentido. Sentia o chamamento. Em cada fibra do corpo, em cada célula, sentia o mar a chamar por ela.

Abandonou o carro na berma da estrada, porta aberta e faróis acesos. Tinha cumprido a sua função, tinha-a trazido até ali. Agora já não tinha importância, estava esquecido, fazia parte de um passado que agonizava no caminho para uma morte à muito anunciada. Tirou os sapatos e as meias, abandonando-os, e avançou, sentindo os pés a afundarem ligeiramente na areia húmida e fria. Tirou o casaco. A água da chuva escorria-lhe pela cabeça, pelos ombros, pelos braços e pelas pernas. Estava totalmente encharcada, como se estivesse debaixo de um interminável chuveiro. Na sua frente via o mar. As ondas avançavam continuamente, apenas para se desfazerem na areia. No seu topo, longos rolos de algodão brilhavam no escuro da noite. O céu abria. Por entre farrapos de nuvens, a Lua iluminava a praia, mas a chuva continuava incessante, sempre no mesmo ritmo, sempre presente. A água escorria-lhe pela cabeça e turvava-lhe a visão. Com a mão limpou a face. Os pés enterravam-se mais na areia agora que estava junto à quebra das ondas. Por momentos admirou a grandiosidade do mar. Retirou as roupas, lentamente, peça a peça, até ficar completamente nua. O mar chamava por ela, por ela e apenas por ela, não por tecidos criados pelo homem, não por falsas peles que cobrem o corpo, mas pela sua verdadeira essência, pelo corpo desnudado e livre. Avançou lentamente sem nunca hesitar ou olhar para trás. Na sua mente vozes convidavam-na e cumprimentavam-na pela sua chegada. Abriu os braços. O mar subia ao seu redor, cobrindo o seu corpo até às axilas. Levantou o rosto para o céu e fechou os olhos. Abriu a boca e sentiu a chuva a cair nos lábios, na língua e na garganta. Engoliu a água pura que se acumulava dentro da boca. Com os olhos fechados, retomou a sua marcha pelo mar dentro. Pouco depois as ondas rolavam sobre a sua cabeça. O seu longo cabelo preto enrolava-se na espuma. Sentiu o seu corpo a diluir-se lentamente nas águas que o rodeavam. Deixou-se levar pelas ondas, os pés perderam o contacto com a areia e ela avançou, avançou até se perder no mar, até se tornar um com o oceano. Tinha encontrado o seu lugar.

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