segunda-feira, 13 de abril de 2009

A PRAIA

Era mais um daqueles dias cinzentos, como tantos outros, que caracterizam o Inverno. Apesar do céu estar coberto de nuvens, a chuva ainda não tinha marcado presença. Um vento fria cortava-lhe o rosto como navalhas de gelo invisíveis. Virado para a praia, podia ver as ondas crispadas com a espuma branca no topo a ser empurrada pelo vento. Aqui e ali, algumas rochas resistiam ao assalto da maré cheia, mantendo-se fora da água e sendo continuamente fustigadas pelas ondas. O cheiro a maresia cercava-o e inundava-lhe as narinas. Apesar do frio do ar o gelar até aos pulmões, inspirou fundo, para absorver aquele cheiro que lhe trazia recordações de tempos passados. Há muitos anos que não via a praia nem o mar. Encontrava-se no cimo das escadas que desciam até ao areal, mas não tinha coragem de descer. Dali podia ver a praia em toda a sua extensão e o mar que sempre o fascinara. Apesar de gostar da praia no Verão, no pico do calor, era no Inverno que ele gostava do mar. A passividade e calma do Verão não se comparavam à fúria desgarrada do Inverno. As ondas rolavam e chocavam entre si, como se lutassem pelo domínio do mar. A areia, normalmente carregada de pegadas dos veraneantes, tinha sido alisada pelos ventos e as marés vivas. Aqui e ali só se viam as pequenas marcas dos inquilinos de Inverno, as gaivotas. Estas ainda não tinham marcado presença naquele dia, pelo menos desde que ele ali chegara. Já as tinha visto ao longe, no entanto, em perseguição de um barco de pesca que regressava ao porto nessa manhã.
A praia trazia-lhe recordações dos seus tempos de infância, dos tempos em que tinha sido verdadeiramente feliz. A infância era a única fase da vida em que se podia atingir a felicidade em pleno, na sua forma mais pura. Cedo começam as preocupações da vida adolescente e adulta e o sentimento nunca mais é o mesmo. Por muito feliz que se seja, em qualquer momento depois da infância, há sempre algo negro, alguma preocupação, bem no fundo de nós, que corrói essa felicidade, impregnando-a de impurezas. Olhou para o céu. Os olhos da memória rasgaram o véu cinzento que o cobria, como se de um pano velho se tratasse, fazendo aparecer um céu azul e brilhante onde um Sol reinava supremo em todo o seu esplendor, inundando o ar de calor. A luz alastrou pelo passeio até à estrada que começou a ficar pejada de carros, em movimento e estacionados. O silêncio que o cercava e o uivo do vento foram substituídos pelas inúmeras vozes das pessoas que passeavam ou se encontravam na praia. As vozes cresciam e multiplicavam-se, mas, aos poucos, uns risos e depois umas gargalhas de criança, sobrepuseram-se a todos os outros sons. No areal, as barracas de panos às riscas verdes e brancas, alinhavam e enchiam-se de pessoas, umas deitas em toalhas, outras sentadas nas cadeiras de madeira deixadas pelos banheiros. No meio de todas aquelas pessoas, procurou a criança cujos risos se sobrepunham a tudo. No sector 36, três barracas a seguir à placa descolorada que o definia, encontrou-o. Tinha o cabelo castanho, um pouco grande e despenteado, como sempre. Os olhos castanhos como avelãs brilhavam intensamente, realçados por um sorriso recheado de pequenos dentes de leite. Usava aqueles calções vermelhos, com duas riscas azuis verticais na perna esquerda, de que tanto gostava. Podia-se ver como antes fora, em tempos que quase esquecera, os tempos em que passava férias naquela praia junto com o pai e a mãe. Viu esta deitada à entrada da barraca, com as costas apoiadas numa cadeira tombada e amparada por uma almofada, como tanto gostava de fazer. Na mão tinha aquele livro grosso que estava sempre a ler e que ele não se lembrava de a ter visto acabar. Junto dele estava o pai, que, com a mão direita, escavava mais um buraco fundo na areia, como costumava fazer tantas vezes. O pai, que um dia fora arrancado da sua vida pelo cancro, brincava ali, com ele, cheio de vida e animação. Aqueles eram os dias em que o via mais feliz, sem o sobrolho carregado e a má disposição provocada pelas contrariedades da vida. Viu-se pegar na pá verde, a que ele mais gostava. Como se podia ter esquecido da verdinha? Muitas construções tinha feito com ela, durante todas as vezes que ali passara férias. Na barraca ao lado estava o Bolinhas, que olhava atentamente para ele, como sempre fazia. Com o seu pêlo todo ensarilhado e a língua de fora, esperava uma oportunidade para brincar com ele. De vez em quando soltava um latido, como que a chamá-lo para a brincadeira. A trela que o prendia ao pau da barraca não o deixava correr e saltar como tanto gostava. Viu-se a levantar, de forma súbita, e correr pela areia. Sentiu os grãos grossos massajarem-lhe as solas dos pés, entre prazer e cócegas. Aquele era o primeiro dia de praia e ainda não se tinha habituado àquelas minúsculas pedrinhas. Era uma sensação muito estranha, que o incomodava e lhe dava enorme prazer ao mesmo tempo. Não sabia explicar porquê, mas também não se preocupava com isso, só sabia era que gostava de o fazer e, por isso, corria pela areia com todas as suas forças, soltando risos e gargalhadas.

- Onde vais? - Ouviu o pai gritar. A mãe olhou por cima do livro e sorriu.

- Porque esperas? - Disse ela. - Vai atrás dele... e leva o balde, que ele deve querer água, como de costume. Como tantas outras vezes, o pai foi atrás dele, sem correr, mas com aquela longa passada com quase sempre o apanhava, de balde amarelo na mão para juntos trazerem água.

No mar, do outro lado das rochas, as gaivotas aglomeravam-se, como uma mancha branca e cinza que boiava sobre a água. Aqui e ali, uma ou outra, faziam uma busca aérea à praia, há procura de um espaço de areia vazio onde alguém tivesse deixado restos de comida. Gostava tanto de correr atrás das gaivotas. Um dia havia de conseguir agarrar uma antes de ela levantar voo. Quando o pai, já com o balde cheio de água, se aproximou dele, correu pela praia acima de volta à barraca, fugindo dele. Estava tão feliz que quase rebentava. Transbordava alegria e inocência por todos os poros dos corpo. Correu e correu até acabar por chegar à barraca ofegante. Enquanto recuperava o fôlego, apoiado com as mãos nos joelhos, de costas para mar, deixou o olhar vaguear pelas barracas, pelo muro que separava a praia da estrada, até o fixar nas escadas que desciam para a praia. No cimo dos degraus viu um velho que olhava para ele com os olhos cor de avelã cheios de lágrimas. O olhar estava estava fixo nele e chamava-o, com uma força estranha mas familiar. Durante algum tempo ficou preso naquele olhar, resistindo ao chamamento. Não queria ir, aquele olhar só lhe prometia o fim daquela felicidade que sentia, o fim da inocência, dos dias cheios, como o que estava a viver naquele momento. Não! Não queria ir, queria ficar. Queria ficar ali para sempre! Tinha que ficar ali, ali é que estava verdadeiramente vivo, o velho que o olhava do cimo das escadas, com a sua longa gabardina bege e as suas calças coçadas, que se encolhia de frio, fustigado por um vento inexistente, estava morto, não existia. Virou as costas e viu o pai a chegar com o balde e um enorme sorriso estampado no rosto. O Sol brilhava e aquecia-lhe o corpo. Pegou na pá e sentou-se junto ao buraco, ia brincar ali para sempre. Finalmente era feliz.

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